domingo, 26 de setembro de 2010

Primavera


Quando abrir os olhos, de manhã, logo cedo
Espero a primavera, que tarda a chegar, nesse sul do mundo.
Um dia, quando criança, me falaram das quatro estações
Que só descobri depois de gente grande, quando o coração era mais apertado do que nunca
E eu já era bem mais criança do que pensei.
Um dia, quando tiver a sorte de rever as flores, talvez eu tenha a certeza de que cresci
Enquanto isso,
Vou cantando as coisas que vejo e pressinto, sem medo de errar
É tudo tão sem graça, enquanto passo
Que nem temo estar indo, vindo, chegando ou partindo
O que me interessa é explorar essa verdade que sai de seus poros
E deixa os cinco dedos de suas mãos gravados em minha face.
A verdade é uma só: você não me ama mais,
Você nunca me amou
Amava o desafio, o longe, a impossibilidade, o desejo de alcançar
Hoje seu leme aponta na direção do que é ermo
Do que talvez nunca alcance
É o lance onde você aposta as fichas,
Imprecisas,
Inexatas,
Investindo o que precisa para tentar ser igual.
Eu me lanço fora desse barco
Traçado para o fracasso, onde você transborda paixão
E eu me vejo pronta para deixar a água entrar e pular num mar bem mais calmo
Onde a minha rota aponta o horizonte infindo
Que sonhei para mim
E onde seu rosto não cabe.
Porque no futuro,
Incerto, inseguro, onde você me vê
Estarei bem
Estarei pronta para navegar com novas velas
Sem o seu desvelo frágil, sem o seu passado torto
Sem o seu medo,
Enquanto você lamenta,
Tenta voltar.
E já não há mais lugar para você.
Depois que a vida mostrar o pobre cenário onde você quis ficar.

sábado, 25 de setembro de 2010

O fura-dedos

A notícia se espalhou como rastilho de pólvora. No meu prédio, na rua, na escola, na cidade. E com ela, um rastro de medo se fez onde havia crianças. O “fura-dedos” iria nos visitar e não adiantaria choro nem velas, seríamos todos examinados, um a um, sem clemência.
Apesar das constantes explicações, em casa e na escola, era impossível não temer aquela ameaça _ que a cada dia ficava mais próxima e só fazia crescer o pavor de sentir a agulha entrando na pele, tirando sangue para levar ao laboratório.
O barulho todo começou por causa das malditas muriçocas, que infestavam os rios Capibaribe e Beberibe, espalhando uma doença feia, de nome mais feio ainda, pela cidade: a filariose.
Enquanto orquestravam suas sinfonias impertinentes em nossos pobres ouvidos, os malditos pernilongos nos distraíam para que as esposas sorrateiras nos picassem, levando nosso sono, nosso sossego e nosso precioso sangue, que acabava contaminado pela doença estranha.
Para tentar nos convencer de que furar o dedo era o melhor que poderíamos fazer, as professoras apelavam para o tratamento de choque: em nossa sala de aula foram expostos imensos cartazes de pessoas contaminadas, que desenvolviam deformidades nas pernas.
Não funcionava. Ou melhor, nos deixava ainda mais em pânico. Era a velha história do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. De um lado, a imagem dos cartazes, nos encarando, dia após dia. Do outro, as folhinhas do calendário sendo arrancadas e o dia da visita do homem de jaleco se aproximando, passo a passo.
Meu medo era tanto que eu cheguei a sonhar, várias noites, com o encontro. Nos pesadelos, o homem de branco trazia enorme agulha, numa pasta pesada, e tinha as pernas maiores que o resto do corpo.
Pois bem, o tão temido momento chegara, numa tarde em que eu me pus distraída, num descuido lamentável. Quando percebi, meus irmãos já estavam na sala, em fila, prontos para terem os dedos furados. Terror entre panelinhas e bonecas. O armário de brinquedos foi a única saída possível e não pensei duas vezes quando me joguei lá.
Devo ter ficado uns três minutos em segurança, abafada e espremida entre as tralhas de criança, quando fui descoberta pelo sorriso gigante da minha mãe. A mulinha empacada foi sendo conduzida, entre apelos de piedade, clemência e tentativas de acordo. Tudo em vão. “Era para o meu bem”, disseram, tentando consolar minha mágoa.
Fui ao abate. Furaram meu dedo, levaram meu sangue, num corte minúsculo que me deixou até hoje o medo de encarar agulhas, médicos ou qualquer profissional que trabalhe usando jalecos. Além, é claro, de ódio mortal por todas as muriçocas do planeta.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Abrindo a porta

É uma confusão danada. Uma hora o meu blog tem porta aberta, no outro não me serve. Nem sei em que blobg tô falando. Vamos testar.