sábado, 25 de setembro de 2010

O fura-dedos

A notícia se espalhou como rastilho de pólvora. No meu prédio, na rua, na escola, na cidade. E com ela, um rastro de medo se fez onde havia crianças. O “fura-dedos” iria nos visitar e não adiantaria choro nem velas, seríamos todos examinados, um a um, sem clemência.
Apesar das constantes explicações, em casa e na escola, era impossível não temer aquela ameaça _ que a cada dia ficava mais próxima e só fazia crescer o pavor de sentir a agulha entrando na pele, tirando sangue para levar ao laboratório.
O barulho todo começou por causa das malditas muriçocas, que infestavam os rios Capibaribe e Beberibe, espalhando uma doença feia, de nome mais feio ainda, pela cidade: a filariose.
Enquanto orquestravam suas sinfonias impertinentes em nossos pobres ouvidos, os malditos pernilongos nos distraíam para que as esposas sorrateiras nos picassem, levando nosso sono, nosso sossego e nosso precioso sangue, que acabava contaminado pela doença estranha.
Para tentar nos convencer de que furar o dedo era o melhor que poderíamos fazer, as professoras apelavam para o tratamento de choque: em nossa sala de aula foram expostos imensos cartazes de pessoas contaminadas, que desenvolviam deformidades nas pernas.
Não funcionava. Ou melhor, nos deixava ainda mais em pânico. Era a velha história do “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. De um lado, a imagem dos cartazes, nos encarando, dia após dia. Do outro, as folhinhas do calendário sendo arrancadas e o dia da visita do homem de jaleco se aproximando, passo a passo.
Meu medo era tanto que eu cheguei a sonhar, várias noites, com o encontro. Nos pesadelos, o homem de branco trazia enorme agulha, numa pasta pesada, e tinha as pernas maiores que o resto do corpo.
Pois bem, o tão temido momento chegara, numa tarde em que eu me pus distraída, num descuido lamentável. Quando percebi, meus irmãos já estavam na sala, em fila, prontos para terem os dedos furados. Terror entre panelinhas e bonecas. O armário de brinquedos foi a única saída possível e não pensei duas vezes quando me joguei lá.
Devo ter ficado uns três minutos em segurança, abafada e espremida entre as tralhas de criança, quando fui descoberta pelo sorriso gigante da minha mãe. A mulinha empacada foi sendo conduzida, entre apelos de piedade, clemência e tentativas de acordo. Tudo em vão. “Era para o meu bem”, disseram, tentando consolar minha mágoa.
Fui ao abate. Furaram meu dedo, levaram meu sangue, num corte minúsculo que me deixou até hoje o medo de encarar agulhas, médicos ou qualquer profissional que trabalhe usando jalecos. Além, é claro, de ódio mortal por todas as muriçocas do planeta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário